*por Miriam Nobre, publicado originalmente no Brasil de Fato
Em meados dos anos 1990, a história que se contava sobre o 8 de março era de que o dia relembrava as 579 operárias mortas em um incêndio em uma tecelagem em Nova York em 1875. As mulheres permaneciam trancadas nas oficinas e por isso não puderam fugir. Algumas versões diziam que elas teciam um tecido lilás e que, por isso, o lilás havia se tornado a cor do feminismo.
No começo dos anos 2000, nós da SOF tivemos contato com o livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de Ana Isabel González. Nele, a autora conta não ter encontrado registro desse incêndio em periódicos, inclusive na imprensa socialista da época. Encontrou referências a greves de mulheres tecelãs e da costura que inspiraram a revolucionária russa Clara Zetkin a propor, na Internacional Socialista, a comemoração de um dia internacional das mulheres, com caráter de mobilização.
Em 1917, no dia 8 de março, que no calendário russo era uma data do mês de fevereiro, as mulheres russas deixaram seus locais de trabalho e saíram em mobilização por “paz, pão e terra” iniciando a Revolução Russa. No filme Outubro (1927), de Eisenstein, é possível ver que os dirigentes partidários da época temiam que uma grande mobilização desencadeasse furiosa repressão czarista. Estavam certos: a repressão a essa mobilização protagonizada pelas mulheres foi terrível, como a reação de quem está acuado. Mas as mulheres tinham outras formas de fazer cálculos. Arrastaram uma multidão e derrubaram o regime. Alguns anos depois, o Dia Internacional das Mulheres passou a ter uma data certa, o 8 de março.
Ao tomar contato com essa história, duas décadas atrás, nos perguntávamos por que a memória das trabalhadoras queimadas, em sacrifício, substituía histórias de organização internacional, de enfrentamento nos locais de trabalho e nas ruas e de uma análise política ousada que abria um novo período histórico, tudo protagonizado por feministas socialistas.
Como a própria autora relata no livro, aconteceram incêndios com aquelas características na época. E seguiram ocorrendo tragédias similares, como o desabamento do complexo têxtil Rana Plaza em 24 de abril de 2013, em Bangladesh, onde morreram mais de mil pessoas, sendo a maioria mulheres. Na véspera apareceram rachaduras estruturais no prédio que foram ignoradas pelos donos das dezenas de oficinas de costura que ali operavam. A Clean Clothes Campaign identificou 29 marcas globais, dessas que gastam milhões em publicidade e centavos por peça para trabalhadoras quarteirizadas, no local. A intensa exploração do trabalho no setor da costura mantém-se como padrão, inclusive no Brasil. Na região de Caruaru, em Pernambuco, onde as costureiras não conseguem alugar casa porque seus vizinhos não suportam seu ritmo de trabalho com luzes acesas e máquinas funcionando 24 horas por dia.
Pesquisando iniciativas feministas da economia solidária, retomei o contato com a Cooperativa Abayomi, que combina a execução de bonecas negras de tecido sem cola nem costura com oficinas em que a confecção das bonecas é metodologia para refletir e desconstruir o racismo. Um tempo atrás, me emocionei ouvindo o relato de uma jovem quilombola artesã que produz essas bonecas. Ela contava que as mulheres africanas sequestradas nos navios negreiros consolavam suas filhas e, com o tecido de suas saias, faziam bonecas que seguiam com elas lhes fazendo companhia. Por isso, me surpreendi ao ler, no site do coletivo Abayomi Boneca Preta Brasileira, um manifesto pelo reconhecimento da criadora da boneca Abayomi. No texto, a artesã Lena Martins conta como criou essa técnica e como uma participante do coletivo nomeou a boneca de Abayomi. O manifesto trata de como uma história de sofrimento real – a da escravidão – foi mobilizada para esconder a criação concreta de mulheres negras, apagando individualidades. Elas reivindicam as origens e destino de sua criação: “Abayomi nasceu livre”.
É de se imaginar que mulheres africanas tenham consolado crianças no contexto do tráfico que tornou o sequestro de pelo menos 12,5 milhões de pessoas durante os séculos 16 e 19 a base da acumulação de enormes fortunas, indústrias, bancos e instituições. Assim, as mulheres negras seguem consolando crianças que perdem amigos e familiares para a violência policial e do crime organizado.
O que ambas as histórias – as origens do 8 de março e da boneca Abayomi – têm em comum é a força criadora disruptiva de mulheres trabalhadoras e subalternizadas que se contrapõem a opressões e explorações materiais e simbólicas. Em algum momento, as narrativas dominantes recolocam no centro as dores e o sofrimento para, pelo excesso, neutralizar nossa capacidade de nos indignar. Isso funciona como uma operação de apagamento daquelas que não só se indignaram, mas reagiram. Como esta operação pode funcionar?
Uma hipótese é a de que a celebração da mulher que sofre seja mais aceitável. A exposição do sofrimento é um instrumento de domesticação, gerando identificação e coerção das demais mulheres. As mulheres criativas, inteligentes, que concretizam, desencadeiam processos, organizam e ousam seguem sendo vista como ameaçadoras, porque de fato ameaçam o patriarcado.
A mulher sofredora pode ser celebrada algumas vezes no ano e, no resto do tempo, é melhor que sofra fora das vistas dos demais. As mulheres podem estar às vistas, desde que agradáveis na visão e no trato. A poeta Angélica Freitas trata desse problema com uma escrita bastante irônica em uma série de poemas de seu livro Um útero é do tamanho de um punho. Ela escreve que “uma mulher braba/ não é uma mulher boa/ e uma mulher boa/ é uma mulher limpa”, e que “uma mulher incomoda/ é interditada/ levada para o depósito/ das mulheres que incomodam”.
Mudando apenas para permanecer como está, o patriarcado pode aceitar as mulheres no espaço público desde que elas se mantenham dentro das normas de gênero. Me lembro de ter participado de uma oficina de Abayomi em que cada uma fazia um bebezinho com o corpo cheio de ervas enquanto contava suas histórias, meninas-mulheres negras. Foi um jeito muito agradável de tocar em pontos difíceis da história de cada uma. Entre retalhos de tecidos, ervas e amigas, mergulhamos no afeto e saímos dali mais fortes.
Em seguida, pensei em Abbey Lincoln e Maya Angelou protestando no Conselho de Segurança das Nações Unidas contra o assassinato de Patrice Lumumba, no Congo. Essas imagens podem ser vistas nos filmes Meu amigo Fela e Trilha sonora para um golpe de Estado. Elas gritam, mobilizam o corpo inteiro, dando ao mesmo tempo tapas e chutes. Precisam de vários seguranças para contê-las, enquanto a câmera mostra homens brancos incomodados com aquela cena-situação “desagradável”.
As mulheres em resistência sentipensam decidindo com quem e em que momento ser bonitas e agradáveis, feias e desagradáveis e, na maior parte do tempo, tudo ao mesmo tempo. O que importa é seguir agindo e contando nossas histórias, defendendo a liberdade de que somos feitas.
*Miriam Nobre é coordenadora da SOF Sempreviva Organização Feminista e militante da Marcha Mundial das Mulheres.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
Edição: Thalita Pires